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COVID-19: Prevenção e Atendimento Adequado em vez de UTIs
Qua, 12 de Agosto de 2020 11:33

No Brasil, em média, 80% dos pacientes com COVID-19 são assistidos em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Unidades Básicas de Saúde (UBSs), com posterior monitoramento por parte das secretarias municipais de saúde. O restante dos pacientes precisa de internação hospitalar (15% em enfermaria/apartamento e 5% em UTI).

Em relação aos pacientes com COVID-19 encaminhados para UTIs, por se encontrarem em fases avançadas da doença, pode-se dizer que a taxa de mortalidade é bastante alta.

Portanto, seria essencial que o atendimento em UPAs e UBSs fosse de excelente qualidade e alta eficiência, para se evitarem o agravamento dos sintomas iniciais e a evolução da doença, mas não é o que se tem observado. De modo geral, o atendimento se mostra deficiente e tem muito a ser melhorado, comprometendo, de forma significativa, o paciente com COVID-19, que poderia receber tratamento precoce e monitoramento, ser isolado e não chegar a estágios avançados da doença.

Mas o foco tem estado na questão das UTIs. Olhamos com lupa as UTIs e deixamos de observar que um atendimento inadequado em UPAs e UBSs poderá aumentar a própria demanda por leitos de UTI e, consequentemente, a mortalidade.

Devemos combater o COVID-19 considerando três frentes de luta:

1. Na primeira, está a população, que deve praticar medidas de prevenção: lavar as mãos com água e sabão, usar álcool gel e máscaras, manter ambientes bem ventilados, não compartilhar objetos pessoais, evitar aglomerações... Quando falamos em evitar aglomerações, estamos nos referindo ao Distanciamento Físico Sustentado (DFS), ou seja, distância de dois metros entre as pessoas, solução muito eficiente para controlar o aumento exponencial do COVID-19. É fundamental ter uma fiscalização rigorosa por parte das autoridades competentes, visando coibir festas, reuniões sociais e todo tipo de aglomeração.

2. Na segunda, estão os pacientes com sintomas iniciais de COVID-19, que precisam ser atendidos em UPAs e UBSs, com o objetivo de obter diagnóstico clínico, exames específicos, tratamento precoce, isolamento e posterior monitoramento. Se isto ocorrer de forma adequada, haverá diminuição da necessidade de internações hospitalares, de UTIs, de respiradores e da mortalidade.

Na atualidade, temos vários protocolos de tratamento precoce, sendo que aqui no Tocantins usamos o protocolo do Conselho Regional de Medicina do Estado do Tocantins (CRM-TO).

Outra questão importante a ser considerada é que, do ponto de vista demográfico, o interior do estado tem pessoas com idade média mais elevada, portanto com maior percentual de comorbidades, ou seja, doenças que podem agravar a situação clínica nos pacientes com COVID-19. A maior parte deste grupo de pacientes é assistida nas unidades públicas municipais ao longo de todo o estado, ou seja, em caso de agravamento pode sobrecarregar as UTIs públicas das principais cidades do estado. É fundamental ter um atendimento adequado em UPAs e UBSs, por parte das prefeituras de todo o estado.

3. Na terceira, está o monitoramento diário da necessidade de novas vagas de internação hospitalar e UTI, com o objetivo de conseguir atender, de forma correta e no momento oportuno, todos os pacientes.

 

Dr. Andrés G. Sánchez
CRM-TO 2290
Cardiologista RQE 991
Hemodinâmica RQE 1.001

 
Covid-19: menos culpa, mais união

A constatação de mais de 100 mil mortes no Brasil em decorrência da Covid-19 se tornou um marco simbólico para uma tragédia nacional sem precedentes. Atônitos, assistimos à construção desse número que esconde histórias de vida abruptamente interrompidas. São homens e mulheres, de diferentes idades, nível socioeconômico e grau de escolaridade, que partiram cedo deixando famílias, amigos e colegas de trabalho.

Em meio a esse cenário desolador, muitos se apressam em buscar culpados pelo rastro de vítimas deixado pela pandemia de coronavírus, como se essa responsabilidade se moldasse como uma luva sobre apenas uma pessoa ou instituição. Numa simplificação equivocada da realidade, afeita a quem sai à caça de bruxas e de bodes expiatórios, ignoram que em processos dessa complexidade erros e acertos se sucedem, de modo quase involuntário.

Pessoalmente, entendo ser um equívoco atribuir ao presidente Jair Bolsonaro a culpa absoluta por essa catástrofe. Se ele cometeu deslizes na comunicação dessa crise, por outro lado, não se pode ignorar que seu Governo se desdobrou para aumentar a oferta de leitos de internação e de UTI para atender os casos mais graves de Covid-19. Da mesma forma, trabalhou pela capacitação e contratação de médicos e demais profissionais da saúde e repassou recursos para estados e municípios executarem suas ações locais.

Dentre os gestores públicos (governadores, prefeitos, secretários de saúde), muitos têm exercido com dignidade o que deles se esperava, adotando políticas que fortalecem a prevenção ao contágio, o acesso ao tratamento precoce e a garantia de resolutibilidade na assistência quando os pacientes necessitam de suporte de maior complexidade. Infelizmente, nem todos rezam por essa cartilha e não foram raros os casos de irregularidades no uso da verba pública, com desvios suspeitos e comprovados. Será que sobre os que se portaram tão mal não paira qualquer culpa?

O mesmo questionamento vale para o Judiciário que, em determinados momentos, criou obstáculos à tomada de decisões do Executivo no enfrentamento da Covid-19, e para parcela importante dos veículos de comunicação que passaram a tratar a doença e morte como partes de um espetáculo macabro, insuflando pânico em lugar de esclarecimento.

A saída dessa crise ainda deve demorar. Os mais otimistas apontam para 2021, contando com o advento de uma vacina eficaz para imunizar a população. Até lá, mais do que nunca, o País precisará marchar unido para reduzir o impacto da Covid sobre a vida dos brasileiros, em especial a parcela para pobre e desfavorecida.

Esse é o fato concreto pelo qual a Nação deve encontrar respostas com honestidade e dignidade, encarando a pandemia e suas variáveis com a complexidade que o tema encerra e evitando o reconforto simplificador da transferência da responsabilidade. Somente assim sairemos maiores dessa emergência epidemiológica, buscando estabelecer alianças em favor da vida, em lugar de encontrar culpados pela morte.


José Hiran da Silva Gallo
Diretor-Tesoureiro do Conselho Federal de Medicina (CFM)
Doutor e pós-doutor em bioética

 
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